Alcácer do Sal foi uma das povoações abaixo do Tejo mais difíceis de conquistar aos mouros. D. Afonso Henriques tomou o castelo da cidade em 1160, mas a conquista não durou muito. Em 1191 os muçulmanos estavam de novo em poder do castelo da cidade e só em 1217, depois de dois meses e meio de cerco por parte das tropas de D. Afonso II, os Almóadas foram expulsos definitivamente de Alcácer.


Conta a lenda que, na altura em que, aterrorizados pela sanha dos cristãos, os mouros fugiram do castelo, uma bela menina terá ficado para trás.


Chamava-se Almira e mal falava ainda. Recolhida pelos soldados, foi criada no castelo como cristã e cresceu rodeada de amor. Dotada para a música, aprendeu a tocar alaúde. Sem conhecer o seu passado, Almira carregava consigo uma saudade e tristeza que a tornavam uma excecional poetisa. O seu canto, que rivalizava com qualquer um dos trovadores que passassem pelo castelo, encantava todos os que o ouviam e, por isso, muitos cavaleiros se deixaram seduzir pela bela rapariga. Almira, porém, a nenhum dedicava o seu amor. Honrava-os nos seus poemas, mas continuava distante e intocável. Assim permaneceu até ao dia em que conheceu D. Gonçalo, nobre cavaleiro que chegou a Alcácer do Sal em busca de honra e serviço.


A jovem moura deixou-se encantar pelos olhos de D. Gonçalo a quem dedicava as mais belas melodias. 


“Pois é mais vosso que meu

Senhor, o meu coração 

Pois vossos cativos são

Meus olhos, lembro-vos eu.”


Almira entoava estes versos do alto da sua janela. Certa noite, o seu canto teve resposta. Era D. Gonçalo que dedicava à moura alguns versos de amor:


“Mais digna de ser servida

Que senhora deste mundo,

Vós sois o meu deus segundo

Vós sois meu bem desta vida.”


Ouvindo o canto melodioso do seu amor, Almira só terá exclamado: “Oh, meu senhor D. Gonçalo!”. O resto não conta a lenda, mas diz-se que desde então, em certas noites de luar de agosto, se podem ouvir junto às muralhas do castelo os sussurros dos amantes eternamente encantados.